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INQUIETO

"Falo o que sinto e sinto muito o que falo - pois morro sempre que calo." (Affonso Romano de Sant'Anna_Que País é Este?)

quarta-feira, 24 de março de 2021

A realidade é plasma

Desprezado cidadão, 
pedir-lhe-ia perdão 
pelos atos praticados
 em nome desta nação 
já doente e aos pedaços. 
Só que tô em recessão, 
pois tenho uns assuntos pendentes 
com zonas diferentes 
do coração

Inominado sujeito, 
tô que tô sem freio no peito 
e desço abaixo a ladeira da devassidão. 
Já não tenho mais jeito 
e, ainda assim, tenho quem me queira,
 que levante a bandeira, 
hasteada no chão. 

Não tenho mais cores que não sejam cinzas. 
Não tenho mais árvores que não sejam madeira. 
Não tenho mais plantas que não sejam estrume. 
E ainda nem chegamos no cume, 
há muito o que subir, 
para chegarmos embaixo, 
como quem carrega um fardo, 
para depois soltá-lo, 
sem compromisso.

segunda-feira, 22 de março de 2021

VAIA

 Ideologia,

eu quero uma pra você,

eu quero uma pra você abandonar

Pois, quando não há razão,

há silêncio

ou gritaria desvairada

A sua propensão à censura

A sua inclinação ao desprezo

Sua sabedoria

vai despencar

do alto do último andar

Seu conhecimento

Seus livros lidos,

eu vou queimar

Vou botar fogo nas suas ideias

Voou achincalhar seus pensamentos

Vou falar

Vou falar

Vou falar muito

Até as suas entranhas me expulsarem

da sua intolerância

do seu desrespeito

E longe de si

ou dentro de si,

por ter sido devorado,

posso ter garantido 

meu direito à alegria

Porque, afinal,

a felicidade é uma obrigação legal


quarta-feira, 17 de março de 2021

Sociedade Ilimitada

 Não quero um sistema 

que me liberte

Mas um mecanismo 

que me permita

Não quero um desejo 

que me devore

Mas um sonho

que se realize

Não quero um sol

que se ponha

Mas uma lua 

que não adormeça

Não quero voar

sem asas

Mas pisar forte

com pés descalços

Eu quero poder pensar

e dizer

o que me contradiz,

em bom som,

com boa dicção:

- Você é quem me faz feliz!

Esse é meu refrão

sem tom,

sem harmonia,

Que diante à sua presença

não tenho limites,

não se devora,

e não se põe

o alvorecer da aurora


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

O rei da barriga

 Quebrei muitas coisas

outras tantas, as consertei

Por ser homem de palavras

abri e fechei as travas

corrompi a lei


Deixei pessoas aos prantos

outras tantas, as que amei

Por ter o fulgor, faltava

e quase me arrebentava

nas entranhas, o meu rei


Tenho, em mim, todas as chagas

as que existem e as que inventei

Por mais que buscasse

não me curava

de todos males, os acessei


Voltam a sangrar, as feridas

após anos de escondidas

destrançam-se, as cicatrizes

ampliam a imensidão do tempo

e deixam, em carne viva, o corpo

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Terreirão

 Não aceita a idade

o rio corrido

as correntes margeiam

os troncos cortados

Não aceita suas rugas

a velhice dada

o caminho traçado

e o percorrido

Não se mete na blusa

com que pulava muros,

roubava frutas

e rezava

Não corre seus passos

e o prazo o engole

acelera o tempo

e reduz o espaço

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Ca La Nuri

 Do caos

à paz

Da turba

ao isolamento

Dá hora

ao tempo

De mim

para ti

todo o meu vento

sábado, 9 de janeiro de 2021

Tijolo

 


A vida é uma reticência e ponto

Cheia de final sem recomeço

Plena de começos sem fim


A vida são vidas feitas

Sólidas ou rarefeitas

Não permanecem ou passam


Em cada trampolim

Pulamos 

Sem saber o pranto


Temos todos fatos

Em nossa fuça

Mas não há recusa


O que sabemos

Tão pouco vemos

Nos direciona


E nesse fim

Há destino

Ou novo fio



TiTolo

 



Jogo-lhe tijolo

na testa

Por uma finestra


Por todo seu caminho

Tem um carimbo no seio

Bem no meio


O que lhe faz assim

Sendo você, sem mim

São as veias


Um movimento

Carrega seu trilho

Sem desancar


Na correria

Perde seu Lar

E as paredes


Meu tijolo,

Agressão que seria

Constrói!


O seu rumo dói

Destrói

E desfaz

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

O nome da palavra



Só o tempo sabe o quanto estamos passados

Nem o vento 

Nem a chuva

Têm a mais puta ideia do quanto vivemos


A palavra proferida aos ares

Contém mais que seus significados

Carregam a vida

Vivida e renunciada


Nossas rugas e cicatrizes dizem tanto

Dos caminhos

Dos atalhos

Procurados na ânsia de nos encontrarmos


Uma frase tem espaços entre as letras

As lacunas do intentado

Onde moram pretensões

Por aventura aos nossos lados


Não há um só código

Não há um só dado

Há mais entre o silêncio e a fala

Que pensa nosso antepassado

domingo, 20 de dezembro de 2020

Lar de

 Já não tenho casa

Ou nunca tive conforto

Não pertenço a lugares

Mas a sentimentos

Que mudam a cada instante

Portanto moro em apartamentos

Em condomínio de emoções

Das minhas próprias emoções

Cheio de elevadores e escadas

Esse edifício pega fogo a todo instante

Há sempre um incêndio

E preciso correr de mim mesmo

Pra lugar algum

A única saída plausível

É a janela

Mas que acaba me fazendo ver

Ter mais belezas aqui dentro

Que suposto nos olhos alheios

Portanto fico

E queimo

O fogo arde e cura

Se desaba um andar da minha brasa

Já tenho um novo lar para viver

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

O Pentelho Elétrico

 Ei fio, liga na tomada

Acende o pavio na tensão

Chamusca maçarico no cabelo

e vamo incendiar toda nação


Tem toda energia neste solo

Carregada desejosa e sem razão

Então pulemos juntos nesta dança

não importa qual coloração


A corda foi cortada p/ confete

Algemas vão virar celebração

pois se abrirem, é comício ou zoação


Tire a sua blusa e se junte

aqui o que não falta é divisa

à desmaiar metade e a outra pisa.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Carta ou Convite

 Tenho palavras tortas atrás da porta

Eu bato

Caso tu não te importas

Abra

Cadabra

Uma palavra é agulha com linha enfiada

Me tece um fio 

E enrascadas

Sê o penhasco de que me lanço

Com amor ou ranço

O que mais se pode querer

É conhecimento

Atado à tesura

Não me penitencia

Pelo desespero

ou silêncio

São resumos do descontentamento

Expressão do tempo

Penso que tanto movimento

Cause ranhuras

Umas fresas na sua postura

Ou espanto

Estamos na praça

Tem tanto vento

Tão pouco banco

Procuro um assento

E ao te ver 

Quero tanto uma prosa

Quase uma briga

Uma rinha

Do meu jeito maluco

Imprudente

De fazer desencanto

Eu percebo

Que percebes

Ja não temos traquejo

Temos ataques

Travamos a luta

E neste tamanho

Brinda comigo

Num amargo

Cálice de cicuta